Krishna em O Mahabharata [trad. Jean-Claude Carrière]

"Resiste ao que resiste em ti.
Sê tu mesmo"

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

sonhei

que meus dentes caíam

ficavam se acumulando na minha boca, porque eu não podia deixar as pessoas verem aquilo acontecer.

aí depois eu cuspia todos os dentes na mão, todos ao mesmo tempo, branquinhos e limpos, só vinha junto a saliva...

domingo, 14 de setembro de 2008

Cap. 1: intimidade mediada

Eu falo ao telefone com amigos com mais intimidade até do que quando nos falamos na correria do dia-a-dia e sinto, sozinha num quarto trancado, uma enorme sensação de conforto, uma agradável segurança de não estar só.

Aqui entra a ilustração, de realização homérica e que viria a substituir o parágrafo, de um imenso quadro repartido em módulos, maiores ou menores, como o corte transversal de um navio que revela a estrutura e o interior de suas cabines, maquinários, estações de trabalho, armazéns e demais dependências. Em cada retângulo, indivíduos, predominantemente sozinhos, alguns em grupos reunidos por razões diversas e diferentes configurações familiares realizam a infinidade de atividades diárias, íntimas, presentes nas intermináveis expressões da vida burguesa, moderna, pós e hiper.

Os meios de comunicação são as únicas janelas entre esses ambientes, onde os indivíduos se preservam enclausurados e protegidos das atrocidades da vida pública. Desde as fogueiras indígenas e das cartas ancestrais desbravando o atlântico em caravelas aos telefones, os homens criaram objetos mediadores da comunicação com o intuito de ampliar suas possibilidades, de vencer as barreiras dadas pela Natureza, apoderando-se dela para remoldá-la e criarem eles mesmos a biologia dos grupos sociais. Quando se trata da comunicação entre os homens não é a capacidade de seus pulmões em gritar mais alto que determina o alcance de sua mensagem, mas sim seu domínio da técnica em percorrer distâncias temporais e espaciais.
Vencer a instantaneidade, o imediatismo da comunicação é o que caracteriza os meios, os mediadores. O telefone vence a distância e resguarda, ainda que parcialmente, as reações. As cartas fazem tudo isso e ainda mais, vencendo o tempo e permitindo portanto um controle muito maior da experiência individual para todas as partes envolvidas na comunicação. A reprodução dos discursos por Gutemberg ou via satélite amplia não só a audiência mas também sua duração no tempo, através inclusive de novas reproduções. Não que os monges medievias não fossem excelentes copistas e não soubessem como preservar bem seus códices, mas há uma diferença radical de escala e de significação entre o monastério e a editora.
Os fluxos de comunicação naturalmente se configuram em redes. E os mediadores projetados pelo homem refletem essa capacidade, ampliando-a e resignificando-a a cada inovação até a criação de um espaço público completamente novo, ao qual só me refiro aqui dessa forma pela falta de uma expressão mais apropriada. O espaço virtual, como chamarão alguns, nos é percebido tão físico, dimensional e íntimo como imaterial, imensurável e anônimo. Ele é um espelho mágico que amplia as possibilidades do mundo concreto e no qual vivemos experiências que o transcendem. Para todos os extremos, o espaço da rede on-line vai mais longe que os espaços público e privado, subvertendo essa concepção até o momento em que a tornará completamente obsoleta. Na experiência real, esse espaço é potencialmente ainda mais íntimo que qualquer local da residência e também mais exposto que qualquer monumento ou acidente geográfico.
Um blog protegido por senha é a versão transcedental do diário e da memória. Um diário trancado à chave, que não se pretende revelar a ninguém ou a que se permite o acesso apenas a convidados é por excelência um instrumento de registro da memória, tanto de relatos das experiências concretas quanto das emocionais. Mas o diário, objeto concreto, está sujeito a todas as ameaças do mundo concreto, como violações do cadeado, roubos e destruições acidentais ou deliberadas. Um blog, seu equivalente transcedental é uma forma muito mais segura e duradoura, muito mais eficiente em todas as intenções de um diário escrito à mão. 
Já não tememos os Hackers como nos primeríssimos momentos da computação e sequer sabemos quais são as perspectivas futuras, mas me parece provável que esses personagens ameaçadores do sistema se tornem personagens históricos, ancestrais de novas modalidades de contestação. Tirar um provedor como o google do ar não é possível, tamanha a complexidade e imaterialidade do sistema especular que está além da capacidade humana decifrá-lo e abatê-lo. O google é uma quimera que devora aquele que o desafia, ou pelo menos essa é a crença dos muitos que despejam suas intimidades em espaços virtuais, confiantes da segurança de suas senhas e do anonimato de seus dados diante do imensurável volume de informação. Confiamos que uma informação ou um documento salvo na rede sob a proteção de um código que apenas EU e a máquina conhecemos esteja de fato protegido do olhar de outros indivíduos. 
Da mesma forma, compartilhamos informações extremamente íntimas através da rede seguros de que apenas os destinatários identificados terão acesso, ainda que o sitema nos alerte da possibilidade do contrário! Sabemos que o google lê nossos emails, mas o google não é humano e portanto não vê, é um deus cego que organiza a informação sem significá-la. 
Na comunicação privada, onde as variações são muito mais sutis e complexas que "ao vivo" ou não, em modos como email, msn e fóruns de discussão, temos a percepção do indivíduo de suas próprias capacidades é ampliada. Muitos confirmarão que é mais fácil comunicar pelo msn que ao vivo, para alguns por esconder as mentiras, para outros por afrouxar o controle da sinceridade. não se pode negar que é menos pessoal, mais frio, no sentido de mais mediado. Mas a mediação não é mais (se é que em algum momento foi) um repressor ou um obstáculo aos sentimentos. Pelo contrário, ao proteger o indivíduo das consequências imediatas da relação com o outro, ao introduzir o tempo de processamento e resposta, o disfarce das reações e o atenuamento das ameaças, o mediador liberta as expressões. O meio, o objeto que atua como interface entre os indivíduos os protege de todos os riscos próprios da experiência concreta, ao vivo, no espaço público tradicional. 
Para outro extremo, da amplificação do discurso, realizamos a primeira grande conquista quando criamos o anonimato da  audiência, ou seja, audiências potencialmente infinitas. Mas o verdadeiro desbravamento foi o anonimato da emissão aliado à real globalização da audiência, novamente com a ressalva de que ainda que não seja essa a realidade do mundo concreto, essa é a sensação quase unânime da experiência. A mediação sempre facilitou a atuação, tanto na construção do discurso e dos personagens quanto no cálculo das respostas. Quando os meios permitem que não apenas as audiências sejam anônimas e globais, mas também os emissores o sejam, permitem então que todos os indivíduos se tornem não apenas consumidores mas também produtores da sociedade do espetáculo.


Para os próximos capítulos:

O que começa no meios de comunicação reflete e se reflete na indústria. Na nova sociedade de consumo, todos são potencialmente consumidores e produtores e as categorias intermediárias são numerosas e muito mais complexas, sutilmente diferenciadas.

Aquele que se mantiver estanque no papel de produtor não saberá transitar no novo mundo que se configura. Estamos atravessando o espelho rumo a novas configurações de tudo, provavelmente rumo a uma nova era histórica com suas próprias categorias. Ainda que nomes como design e medicina permaneçam, serão rótulos sobre conceitos e práticas completamente diferentes daquilos que assim denonimamos hoje e, principalmente, denoninamos antes.