Krishna em O Mahabharata [trad. Jean-Claude Carrière]

"Resiste ao que resiste em ti.
Sê tu mesmo"

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Valdemar (da Cruz Santos)

Escrevo para tentar entender. Saí da faculdade e caminhei até a Joaquim Silva, no limbo Lapa/Glória/Praça Paris para buscar um calçado no sapateiro. Depois caminhei até o ponto na beira mar onde pegaria meu ônibus.

Um homem aborda as pessoas do ponto. Uma roupa social surrada e suja. Um olhar... sincero?

A abordagem não foi verbal. Ele distribui folhas xerocadas -- e é aí que cativa minha atenção. Minha primeira reação é de interesse gráfico. A colagem com uma foto no fundo, um recorte de documento e alguns garranchos é tão intrigante quanto indecifrável ao primeiro olhar. Não adianta tentar descrever, vale a investigação por si:

Pergunto a ele o que era aquilo. Ele diz que estava mostrando para as pessoas para que lhe dessem esmolas. Enquanto eu pesco algumas moedas na carteira ele embola frases sobre uma mulher da vida que levara todo o seu dinheiro e que desde então está na rua.

Há algumas semanas, estimulada por uma proposta de projeto de design com o tema Cidadania, venho martelando a minha cabeça com questões a respeito dos moradores de rua. Como entender as histórias dessas pessoas, que as levaram a essa situação? Como entender essa situação? O que fazer a respeito, que não aceitar e passar direto? Quanto esse homem se aproximou de forma tão curiosa, não pude evitar dedicar-lhe alguma atenção.

Deixo que passem alguns ônibus na tentativa de conversar com ele. Mas a explicação não se esclarece, ele fala um pouco dessa mulher, repete seu endereço que eu não gravo, afirma que lhe tomara todo o dinheiro. Analisando agora a folha xerocada que lhe pedi para deixar comigo, desconfio que os garranchos no alto sejam o nome e endereço dessa pessoa.

Um pouco atordoada, com vontade de conversar mais, mas temerosa não sei bem do quê, faço sinal para um ônibus que me serve. Ele entra no ônibus comigo. Distribui as folhas recolhidas no ponto aos passageiros do ônibus e faz seu discurso de pedinte. Fala da mulher que o deixara sem nada, que não tinha família nem ninguém, que os pais estão mortos, que há um mês está dormindo na rua. Presto atenção no que ele diz, olho nos seus olhos, e quando se aproxima de mim, tento conversar mais um pouco. Pergunto onde ele está dormindo, ele diz que pela rua mesmo, que ia subir pra Rocinha... Eu digo que gostaria de saber mais sobre a história dele e talvez ajudá-lo.

Ele então tira um celular do bolso e coloca na minha mão "olha, tá aqui o meu telefone". Futuco a interface até encontrar o número dele. Ele me diz seu nome, Valdemar. Salvo na minha agenda. Devolvo o aparelho e ele aperta minha mão, olha nos meus olhos e diz "você vai me ajudar, né? eu sei que você vai me ajudar." Valdemar segura a minha mão e pergunta se eu vou pedir a Deus por ele. Eu digo, com total sinceridade, que vou. Ele senta no banco ao meu lado e fala mais algumas coisas, abre uma pastinha de documentos e tira para mostrar, primeiro seu cartão do Banco do Brasil, igualzinho ao meu, depois seu passaporte. Eu digo que vou descer e ele recolhe suas folhinhas xerocadas dos passageiros para vir junto.

Ele senta no ponto de ônibus e abre espaço pra que eu me sente também. Parte de mim olha a situação de fora e quer sair correndo. A proximidade com aquele desconhecido acionava alarmes instalados há muito tempo, imagens absurdas me ameaçavam. Ainda assim eu sinto que era pra ficar e por isso me sento. Valdemar abre sua pastinha e começa a tirar documentos. O cartão do banco de novo, diz que vai receber amanhã 510 reais. Depois o passaporte, dizendo que estava morando no Chile. Encontro um carimbo de saída da Argentina.

Enquanto coloca um monte de papeizinhos na minha mão, cartões de crédito, extratos bancários, anotações indecifráveis, Valdemar me pede ajuda. Diz que receberá esses 510 reais amanhã e todos os meses. Que pode me dar esse dinheiro para que eu encontre um lugar para ele morar, um quarto, compre comida para ele e o ajude. Surge então um gesto. A cada vez que diz ajudar, Valdemar aponta as têmporas e gira o dedo. Parecido com o que fazemos quando dizemos que alguém não regula bem.

Começo a me perguntar se Valdemar tem alguma deficiência cognitiva. Se a ajuda que ele precisa é alguém que cuide dele. Eu pergunto porque ele não se vira sozinho com esse dinheiro, porque não aluga um quarto. Ele repete que não dá, que não tem ninguém, que os pais morreram, que a mulher levou tudo, que ele veio do Chile... Damos algumas voltas com isso, eu digo que ele não pode confiar na primeira pessoa que aparece e entregar assim o cartão do banco e dizer todas essas coisas. Eu digo que vou ajudá-lo mas levanto querendo ir embora, algo na proximidade me incomoda. Começo a entender que a ajuda de que esse homem precisa é de outro tipo, não é financeira, é emocional. Ele precisa de cuidado. E eu não sei se posso dar isso. Ele diz que confia em mim e pergunta meu grau.

Eu digo que estou terminando a faculdade. Ele diz que confia em mim, repetidas vezes. Eu digo que os maiores ladrões do país têm doutorado e estão lá em Brasília roubando todo mundo. Ele segura minha mão e chega muito perto, diz que as pessoas podem achar que ele é louco mas que ele é deficiente. Eu pergunto o que ele tem e ele mostra o braço, ligeiramente deformado, com uma cicatriz, mas não consigo entender de quê. Em algum momento eu digo que vou embora e ele me dá um beijo na bochecha. Sinto nojo mas deixo que ele faça. E não consigo ir embora.

Valdemar continua sentado e continua falando. Que eu posso ajudá-lo, conseguir um lugar para ele ficar, para ele estudar, trabalhar. Me mostra uma folhinha esfarrapada com uma lista de empregos de 86 a 88. Hoje ele é aposentado, apesar de não ser idoso. Teria sido um acidente de trabalho que o incapacitou e por isso ele se aposentou? Mas ele não parece fisicamente debilitado, qual é exatamente a incapacidade desse homem? Valdemar diz que eu posso ajudá-lo, diz que sabe falar espanhol, que quer mexer em computadores.

Eu sigo repetindo que quero ajudá-lo, que vou pensar em um lugar para ele ficar, ele segue perguntando se eu vou ligar para ele, até amanhã. Fica lembrando dos 510 reais, que ele pode me entregar, que ele confia em mim. Aflita com a proximidade que ele insiste em estabelecer, eu decido ir embora mesmo. Ele segura minha mão e me beija outra vez. As duas bochechas. Eu sinto muita repulsa, mas deixo.

Deixo Valdemar falando enquanto me afasto. Tenho medo de que me siga, estou perto de casa, mas não olho para trás. Depois de virar à esquina, olho e vejo que ele não veio. Me pergunto o que eu posso fazer por esse homem, como posso ajudá-lo. Primeiro, e eu sei o quanto egoísta isso é mas não consigo evitar, porque estou curiosa. Quero entender quem é esse homem, pelo quê ele passou, como foi parar nessa situação. O quanto é verdade e o quanto é mentira.

Agora, em casa, tento decifrar a folha que trouxe comigo. No alto, um cabeçalho da polícia civil de SP. O número do boletim e sua data de emissão, 18/04/10. Há dez dias atrás, Valdemar estava em São Paulo? Embaixo essa foto dele sem camisa, mostrando o braço com a cicatriz que na foto nem se vê. Sorriso e olhar que me levam de volta à nossa conversa no ponto de ônibus. Pedem ajuda e dão vontade de ajudar de verdade. No texto colado por cima da foto, de uma folha rasgada de uma delegacia em São Paulo, emitido em 15/01/10, alguns dados sobre Valdemar.

Nomes dos pais, naturalidade de Fortaleza, CE, nascimento em 10/04/65. Valdemar completou 45 anos há 18 dias. Aposentado, 1º grau incompleto, endereço residencial em Campos Elíseos, São Paulo, SP. Embaixo algumas informações que eu não entendo se se referem a ele ou outras pessoas. Autores 1 e 2, ambos desconhecidos e não presentes ao plantão (ao qual Valdemar esteve), o autor 1 do sexo feminino e o 2 do sexo masculino. Autores de quê? Que plantão? Preciso consultar alguém que decifre para mim esse documento. Em cada autor uma observação. Autor 1: com cicatriz no braço. Autor 2: armado.

Valdemar estava armado? Não consigo imaginar aquele homem, com aquele olhar, carregando uma arma. Me volta à cabeça a imagem dele segurando minha mão, chegando perto pra falar quase no meu ouvido, me dando um beijo na bochecha. Algo em mim sente nojo, algo maior sente medo. Imagino ele não me deixando ir, não me deixando sair do ônibus, me seguindo, me levando com ele para algum lugar, puxando uma arma ali mesmo no ponto, passa tudo patricinha burra, tá achando que pode ficar de papo com qualquer maluco que te pára na rua?

Lembro de uma situção parecida, dentre outras, vivida em Salvador, no Pelourinho. Estava com dois colegas de viagem, que conhecera na Bahia mesmo, ambos antropólogos. Um deles tinha o hábito de conversar com os moradores de rua. Uma noite ficamos um bom tempo conversando com uma senhora que vivia ali desde menina, sentamos com ela no chão da praça, ela chorou no colo de um deles, desenhou no meu caderno de viagens -- contando experiências de quando esteve presa, se eu me lembro bem --, escreveu coisas bonitas e confusas, nos abraçou como uma criança. Depois quis nos empurrar para o táxi de um suposto amigo, o que um passante -- talvez um guarda municipal, não lembro -- advertiu ser uma roubada. Foi estranho de repente ver aquela mulher que parecera tão fragilizada como uma ameaça. Na realidade ela era os dois, a violência parece sempre caminhar ao lado da fragilidade.

A culpa burguesa me faz chegar e escrever tudo isso. Pra não sumir da memória. Eu tenho mil coisas pra fazer hoje, amanhã, ao longo da minha vida. Mas eu quero ajudar o Valdemar. Eu olhei nos olhos dele e disse que o ajudaria. E eu comecei a acreditar quando ele fez aquele gesto apontando as têmporas e eu entendi ou desconfiei do tipo de ajuda de que ele precisa.

Talvez encontrar um quarto que ele possa alugar, talvez ligar para um assistente social... nem sei como funcionam essas coisas. Não sei quanto de verdade há na história dos 510 reais. Não sei pra quantas pessoas ele já contou essas e outras histórias, já pediu ajuda. De alguma forma me sinto comprometida com esse homem. Sinto que ele não me abordou por acaso, que eu não dei ouvidos a ele por acaso, que algo eu posso fazer e que não seja apenas para amenizar a minha culpa de pobre menina rica. Eu tenho o telefone do Valdemar, eu posso encontrá-lo se resolver fazer alguma coisa que possa ajudá-lo. Mas não entendo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Fazer o que der vontade, sem ataques de futuro

Não namorar significa fazer o que der vontade sem (se) machucar.

Achei que isso era viver.
Não foi só uma resposta esperta. Mas a frase me pegou de surpresa. Uma vida inteira resumida assim. Fazer o que der vontade sem (se) machucar. Acho que em todos os mundos do meu universo isso é a única coisa que sempre fez sentido. E é exatamente isso que eu faço, sempre, em qualquer vida.

Mas tem esse não namorar no início da frase porque era disso que se tratava o diálogo. Foi engraçado porque eu estava justamente formulando o que é namorar, senão assinar um contrato, sem necessariamente discutir seus termos, mas esperando que sirvam de proteção contra tudo aquilo de que temos medo: que o outro deixe de amar, que ame mais um terceiro, que nos deixe sós no sábado à noite, que não tenhamos quem se interesse por toda a complexidade do que somos e sentimos.

Sejamos sinceros, namorar não protege ninguém contra nada disso. Pra começar que esses são medos que, se sentidos, devem ser vencidos e não simplesmente abafados. Pelo menos na minha experiência o termo compromisso só serviu pra eu me sentir segura de que o outro estaria com suas portas trancadas, que não deixaria ninguém entrar nem se deixaria sair. Mas eu mesma nunca tranquei minhas portas. Eu sempre transitei livre, eu sempre fiquei só enquanto era bom, eu sempre deixei entrar quem se anunciasse.

Liberdade nesse caso é sinônimo de sinceridade. E se tem uma coisa que eu não aprendi é a não ser sincera. Outro dia uma amiga me perguntou o que fazer numa situação emocional complicada. Depois de um breve discurso sobre a invalidade de qualquer conselho, dado que não sou eu lá vivendo a situação, eu disse a ela que fosse sincera, com ela mesma em primeiro lugar. Porque numa situação em que você não tem ideia das consequências externas do que fizer, ou seja, sempre, só resta garantir que a consequência interna seja pacífica.

A melhor forma que eu encontrei pra dormir tranquila todas as noites é fazendo exatamente o que me dá na telha, deixando as palavras saírem quando se anunciam na boca, deixando as mãos serem tão carinhosas quanto desejarem e os pés caminharem na direção que lhes aprouver. Quando eu sinto muita vontade de dizer algo a alguém... eu posso estar muito longe de adivinhar o que a pessoa vai ouvir, o que vai dizer de volta. Mas eu posso ter certeza, convivendo comigo há quase 24 anos, que eu vou me sentir bem depois de dizer. E que se eu não disser aquilo vai inchar na garganta e que aos poucos vai criando uma papada quente e incômoda que vai me deixando pesada e restringindo meus movimentos.

Bom mesmo é quando duas pessoas estão juntas porque estão com vontade. Dure isso uma hora, um fim de semana ou uma vida inteira. É sempre uma vida inteira, dentro das muitas que vivemos em cada um dos muitos mundos que orbitam no universo de cada um de nós. Desde que seja sincero, será intenso e será bonito. Bonito é quando é inteiro. Quando o olhar não cobra nem pede, só oferece.

Me pergunto quando a gente vai confiar o suficiente na vida e no Deus dentro do peito pra transitar seguro e à vontade por qualquer situação, agindo só em resposta ao que acontecer, sem ataques de futuro como diz meu professor de Contato. Sem ataques de futuro. A vida é cheia desses casinhos deliciosos que a gente não quer deixar acabar antes de explorar toda a beleza que puder encontrar. A vida inteira é assim, o mundo inteiro. As divisões que criamos no tempo são invenções da mente. Cada dia é único e a vida toda é inteira. Nada começa nem termina, tudo é fluxo. E o meu manual de instruções pra navegar tranquila é fazer tudo o que der vontade, sem (se) machucar. E responder às situações em vez de tentar adivinhá-las. Sem ataques de futuro.