Krishna em O Mahabharata [trad. Jean-Claude Carrière]

"Resiste ao que resiste em ti.
Sê tu mesmo"

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O guia gentil

Sempre fui de uma natureza atormentada, que não se deixava ter paz a maior parte do tempo. Dentro de mim sempre gritaram conflitos. Conflitos de valores e desejos, de não saber muito bem a que vim ao mundo, de medo de perder, de errar o caminho. O mais sutil e talvez mais difícil desses conflitos, causa e consequência de todos os outros, é de mim comigo mesma. Uma necessidade de se definir que não convive com uma personalidade instintivamente mutável, uma necessidade de segurança que não deixa ser o impulso de sair e rodar e correr vagabundo.

Vez por outra aparece algo que tranquiliza esse ir e vir de sentimentos. Uma paixão, um objetivo, um querer maior que prevalece sobre os outros e onde sou capaz de concentrar energias e que até mesmo me leva a renunciar a tantas outras coisas, me faz esquecer delas, sua importância se desvanece e minha existência se pacifica.

Então a nuvem leitosa de possibilidades se dissolve permitindo que meus olhos descansem e vejam a beleza em cada coisa do mundo, principalmente nas que estão perto, as dúvidas se desembaraçam e deixam o coração bater firme e tranquilo, o fio da respiração se torna constante e me sinto segura de mim. Nada me atormenta, não tenho a inquietação de ir a lugar nenhum, não anseio pela conquista de nada nem de ninguém. O mundo inteiro já me pertence.

Mas eis que algum dia amanhece nublado e eu não sei dizer o que é, quando ou onde, mas alguma coisa está fora do lugar. No princípio é como uma mosca zumbindo na orelha de alguém que dorme e não se dá conta, é como uma dor de cabeça tão leve que não se denuncia, mas que perturba, pouco a pouco descompassa a respiração, faz o dia parecer muito longo e a noite muito curta, traz à tona a memória de lugares e pessoas e dá na telha de querer estar com eles. Vão voltando desapercebidamente as dúvidas, entram pela porta dos fundos sem acender a luz e de repente já se instalaram de novo todas as angústias, os medos e a mente volta a encher-sede pensamentos repetitivos que expulsam o ânimo até que os braços e pernas não tenham mais coragem de deixar a cama. O peito se enche tanto de quereres, de frases incompletas, de não saberes, que o espírito se encolhe e se protege da violência desses eus que se debatem e então, sem mais sentir a presença gentil desse espírito em si, sem conseguir alcançá-lo nessa floresta sombria e úmida, a existência se turva outra vez em incerteza e não-estar. O corpo toma controle e a mente se pune, o corpo se entope para que a mente não pense, mas ela pensa ainda mais, dá voltas e voltas até que o corpo tenha vertigem e desabe.

Não adianta esperar que se abra novamente o dia. De nada adianta implorar, o rosto retorcido e os ombros crispados, os joelhos afundados na lama, para que cesse a chuva e que brilhe eternamente o sol. O sol sobe e desce nos céus e não há quem possa controlá-lo. O sol está fora de mim.

É preciso ter coragem de ir além das dúvidas, de renunciar a elas. Os conflitos não podem ser resolvidos porque não são reais, eles podem apenas ser dissolvidos, superados. É preciso assumir que não se tem controle sobre nada que esteja fora de si e repetir como um mantra que a paz e a felicidade em lugar nenhum, não estão em qualquer objeto. É preciso lembrar-se de que há um espírito e que mesmo recollhido num peito abafado, esse espírito brilha. É preciso então cerrar os olhos e convictamente buscar esse brilho dentro de si, arrancar cada erva daninha que obstrua o caminho e abrir espaço, enfiar a mão até o fundo dessa floresta sobria e resgatar essa jóia brilhante, o espírito luminoso. E ao devolvê-lo ao seu lugar, no centro de um peito que se esvazia, ele poderá resplandecer e guiar.

2 comentários:

iuli vieira disse...

lindo clarice! essa sua busca é autêntica e toca o coração de quem lê de uma maneira singela pois despretensiosa. é um compromisso contigo e nesse ritmo acaba contagiando positivamente quem se conecta com essas camadas de percepção. Que sua jornada seja firme e flexível! bjo
:D
PS: continue escrevendo, assim que puder, seus textos são inspiradores!

RebecaSt disse...

me sinto quase invadindo a sua intimidade, porque as coisas escritas aqui são tão verdadeiras e inocentes.
logo depois, não me sinto mais uma penetra, se torna uma identificação e então compartilho internamente com tudo isso.
é lindo, emociona. e quer saber? me ajudou um monte nesse dia cinza.
muito das coisas que eu li, já pensei, penso ou deveria pensar.
vou te add no twitter!
um beijo com carinho,
rebeca.